Um loft aconchegante - blog nossakaza | kazapronta

Loft, em inglês, significa sótão – e não é por acaso. Na verdade, viver em um loft só se tornou algo sofisticado porque alguns artistas nova iorquinos, incluindo Andy Wahrol, ousaram ocupar uma área da cidade repleta de fábricas abandonadas a partir da década de 1960. A batalha foi longa e viver em um loft só se tornou um estilo de vida, de fato, depois que os entraves com a cidade foram resolvidos.

Aqui vai um convite para entrarmos juntos nessa história.

 

Como surgiram os lofts

Tudo começou no SoHo, em Nova York, um bairro que hoje é bastante procurado em Manhattan e ostenta uma coleção inigualável de arquitetura em ferro fundido e algumas das propriedades mais caras dos EUA. Mas, na verdade, o bairro nem sempre foi assim: antes das décadas de 1960 e 1980, era um bairro sujo, ermo e perigoso.

O SoHo prosperou na era industrial, entre os séculos XIX e XX, recheando os arredores com prédios que abrigavam fábricas e armazéns. Mas, com a modernização da indústria a partir da metade do século XX, a verticalização desses imóveis se mostrou extremamente ineficiente. Cada vez mais, os lofts provavam ser inúteis para uso comercial. Além disso, ninguém queria viver em uma região cercada por fábricas abandonadas.

 

Loft no SoHo, nos anos 1980. Imagem: SoHo Memory Project.

No entanto, uma parte da comunidade encontrou utilidade nos lofts abandonados e a novidade convenceu alguns artistas de vanguarda a se mudarem para a área, valorizando os espaços grandes e abertos que essa nova “maneira de morar” poderia oferecer. Janelas grandes, espaços abertos e aluguéis baratos atraíam cada vez mais moradores que viviam em espaços “crus”, muitas vezes sem proteção contra incêndios, saneamento, ventilação, aquecimento ou água quente.

Durante toda a década de 1960, esses novos moradores se esforçaram para melhorar as condições do bairro e legalizar as habitações, direito que só foram conquistar no início da década seguinte. Uma vez legalizada a autorização de funcionamento como estabelecimento misto (comercial e residencial), esse novo uso dos imóveis em áreas urbanas estabeleceu um novo sonho de consumo em habitação. Arquitetos e designers tiraram vantagem das características desses imóveis para criar ambientes descolados. Foi assim, por mero acaso, que surgiu o estilo industrial.

 

 

Em 1971, o novo plano diretor de Nova York gerou um precedente para a adaptação e reuso de espaços não residenciais em áreas urbanas. Cidades ao redor seguiram o exemplo do bairro do SoHo, convertendo esses espaços até então vazios em apartamentos, hotéis e escritórios.

De fato, durante as quatro últimas décadas, essa conversão de uma área industrial em residencial também trouxe alguns problemas, como a gentrificação. Uma vez que os imóveis representavam um estilo de vida dos artistas nova iorquinos, conseguir um espaço desses acabou passando de loucura a sonho de consumo. Com a alta demanda, os preços também aumentaram e supervalorizaram o bairro, que hoje é um dos mais caros para se viver nos Estados Unidos.

 

Características dos lofts

Os atributos dos lofts se assemelham bastante ao seu uso original – e foram, inclusive, os propulsores do estilo industrial na decoração. Algumas das características comuns nesse tipo de moradia normalmente incluem:

 

1. Pé direito alto ou duplo

Os prédios industriais tinham pés direitos altos para acomodar equipamentos e máquinas, e janelas enormes para aproveitar a luz natural, a fim de economizar o uso de energia elétrica durante o dia.

 

Vista do mezanino do loft de Rosana Costa, nossa anfitriã da semana. Repare nas janelas grandes, que aproveitam a luz natural para os dois níveis.

2. Espaços abertos e mezaninos

Lofts também tinham grandes espaços abertos para acomodar os equipamentos que citamos acima. Quando os lofts viraram tendência, essas plantas se mantiveram em muitos lofts e fluíram para múltiplos níveis. Os espaços abertos deixam livre a imaginação para pensar em áreas que estão em constante mudança: as funções de cada porção do espaço podiam ser definidas por funcionalidade (área social ou íntima) ou espaços temporários de trabalho, como um ateliê ou exposição temporária.

Os mezaninos eram utilizados para fiscalizar de cima os trabalhadores e poder chegar na parte superior da máquina, quando fosse necessário. Para não perder a iluminação e o contato, eles normalmente são menores que o piso de baixo e podem ter formatos diferenciados.

3. Elementos estruturais expostos

Como prédios industriais, não era necessário dar muita atenção ao design de interiores, já que o importante era ter baixo custo e ninguém veria. Consequentemente, vigas, pilares e elementos estruturais ficavam visíveis, evitando esse gasto. Muitos lofts mantiveram esses elementos expostos, características do estilo industrial, que hoje voltou à tona com o cimento queimado.

 

Outros elementos expostos

Tijolos – especialmente as paredes de tijolo aparente – são provavelmente uma das características mais marcantes dos lofts e do estilo industrial. Muito embora, madeira, concreto, granito e metal também são muito comuns nesse estilo. Os tijolos aparentes deixam o ambiente diferenciado, trazendo um charme ao espaço. Para ver a sensação que eles passam, leia o post da casa da Melina, da transformação que ela gostaria de fazer no seu apartamento.

Uma vez renovados, os lofts foram redesenhados e redecorados e, muitas vezes, acabaram por sobrepor elementos estruturais (madeira, tijolo, concreto) com acabamentos modernos, como a cerâmica, o couro e o mármore. Para se adaptar ao estilo dos clientes, os arquitetos acabaram misturando materiais, Arquitetos modificaram o estilo tradicional para que ele se adaptasse ao seu cliente, dessa forma, muitas misturas de materiais e estilos apareceram. E isso não é um problema, já que sua casa tem que refletir a sua personalidade e não seguir uma regra imposta pela mídia.

 

4. Encanamento aparente

A exposição dos elementos estruturais também se aplica ao encanamento que, assim como as vigas e pilares também fica aparente na construção. Nas fábricas, eles ficavam dessa maneira para evitar custos e para caso houvesse um vazamento, logo se saberia o cano comprometido e poderia trocá-lo. Porém os artistas acharam interessante essa questão e já que também não queriam gastar, optaram por deixar dessa forma.

 

5. Coleções de arte

E, por último, vamos lembrar que o estilo foi lançado por artistas. Não poderia faltar, portanto, uma coleção de arte para dar vida às paredes cruas. Além disso, os tetos altos, as janelas grandes e os espaços abertos são características que favorecem muito a exposição de obras de arte. Andy Wahrol, um dos moradores do SoHo, soube aproveitar seu espaço para transformá-lo em um loft-ateliê-galeria:

 

Loft de Andy Warhol, um dos primeiros moradores do SoHo.

 

Edifício Broadway

Edifício Broadway. Foto: 123i.

 

Do SoHo, passamos pela 5a Avenida e chegamos até a Broadway após duas ou três milhas… Só que não. Estamos falando do Edifício Broadway, instalado em uma das vias arteriais do Itaim Bibi desde 1983.

O prédio é inspirado nas então novas moradias do SoHo, que tinham pouco mais de uma década desde a legalização da transformação desses espaços industriais em residências quando foi inaugurado o loft em São Paulo. Dá para ver o concreto aparente na fachada e a proposta no hall de entrada, cujo piso preto e branco alternado imita o revestimento das pistas de dança da Broadway.

 

Todos os apartamentos têm uma grande janela que ilumina os dois andares. Originalmente, o projeto foi entregue com piso e teto em cimento queimado e algumas áreas do interior do prédio, como as escadas de emergência, têm encanamento aparente. Muitas das características dos lofts estão reunidas ali, naquele espaço.

 

Mas quem é anfitriã que vive nesse espaço?

 

Quando entramos no apartamento, tentamos decifrar o estilo de vida da nossa anfitriã, que não estava em casa. Seu refúgio reflete seus hábitos regrados – quando algo está fora do lugar, é proposital. Pela atmosfera, imaginamos possíveis profissões, como psicóloga, fonoaudióloga ou terapeuta ocupacional. Um de nós palpitou: “Estou me sentindo dentro do apartamento da Phoebe, do Friends”. Estávamos todos errados em nossos palpites. Rosana sempre foi bancária, e quase sempre trabalhou no mesmo banco – sua personalidade estaria mais próxima à da Monica, do mesmo seriado.

 

 

Ela vive no apartamento desde 1991, quando um dos clientes da agência em que trabalhava comentou sobre a venda de um loft que se parecia muito com o estilo dela. Rosana, então com 27 anos, negociou a compra e passou a viver no apartamento desde então – sorte a dela, pois não tardou muito até que o Plano Real congelasse as poupanças.

Desde que passou a habitar esse espaço, o apartamento já adotou diversos estilos, e agora a proprietária conta que está em uma transição gradual para voltar ao seu estilo industrial original. Aos poucos, ela substituiu o piso de cimento queimado da área social pelo porcelanato e arrancou o carpete do quarto para colocar piso de madeira. A parede com pé direito duplo ao lado da mesa de jantar também foi entregue em cimento queimado, e a proprietária trocou pela textura há cerca de 10 anos. A textura mudou de cor, e hoje adota um tom de amarelo ocre.

Uma das poucas coisas que nunca mudou de lugar é o pôster em tamanho A1 da mostra Monet to Matisse, uma coleção suíça exibida em um museu de Jerusalém que traz um quadro do surrealista catalão Joan Miró e pode ser vista sob todos os ângulos do loft.

 

 

Rosana gosta de decoração e seus amigos e família passaram a presenteá-la com artigos decorativos: plaquinhas, adornos, enfeites de mesa, esculturas, porta-retratos, bowls decorativos e toda a sorte de presentes acabou infiltrando sua cristaleira, que serve como abrigo para seus objetos afetivos. Mas ela nos contou que já pediu para eles pararem, porque sua bagunça organizada já estava passando dos limites.

 

 

Pelo tamanho da estante e quantidade de fotos de sobrinhos, afilhados e amigos, notamos que o coração da nossa anfitriã é gigante assim como sua cristaleira.

 

Convidamos a todos para entrar no universo e na rotina da Rosana, nossa anfitriã da semana.



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